Hoje eu chorei pela minha condição de saúde, pela primeira vez em dois anos e meio, quando tudo isso começou. Chorei sentida, chorei todo o medo, toda a preocupação, toda a frustração de ter um corpo que não funciona como deveria. Aquele choro que a gente chora com o corpo todo, aquele choro que grita em silêncio, que faz perder o ar, soluçando baixinho até acalmar.

Chorei depois de receber o resultado de mais um exame, e percebi que ingenuamente eu depositei muitas esperanças em um laudo positivo: queria ler que o que era ruim continuava ruim, mas estável. E torcia para que algo aparecesse que fosse passível de solução, para me aliviar das dores de uma vez por todas, o que não aconteceu. O que era ruim ficou pior, e as dores não têm previsão de melhora.

Enquanto isso, os exames genéticos continuam sendo feitos, muito dinheiro sendo gasto, muito tempo em salas de espera, em consultas, em estudo tentando entender melhor o que acontece comigo.

E por tudo isso, hoje eu chorei como nunca. Continuarei positiva, continuarei confiante, continuarei não questionando e não ressentindo. Mas só amanhã. Por hoje, enquanto abraçava minha bebezinha pra ela dormir, me permiti sentir triste e colocar pra fora essa dor emocional que não tem remédio. Recebi carinho, amor e conforto do A., e depois de uma noite de sono com o abraço dele carregando minhas energias, amanhã começamos tudo de novo.

@depoisdaceci

Eu ainda não consegui escrever sobre a Cecília.

Penso sempre em registrar como foram esses primeiros meses, como a gente se conheceu, como a gente criou nosso laço, o quanto ela é brava, um pouco dramática, extremamente carinhosa. Mas nada nunca parece suficiente.

Um filho é realmente tudo que dizem, é a soma de todos os clichês. E enquanto eu padeço aqui nesse paraíso, criei o @depoisdaceci pra tentar não esquecer de como as coisas têm sido nessa fase por aqui.

quote – April Kepner

What hurts us is cumulative. It happens over time. We absorb blow after blow, shock after shock, painful hit after hit.

But even then, even if we know exactly how we got here… it doesn’t mean we can fix it.

You can’t heal every wound. And that’s okay. I have to believe it’s okay.

I have to believe that even if something seems like it cannot be fixed… it doesn’t mean it’s broken.

“No meio do ódio, descobri que havia, dentro de mim, um amor invencível. No meio das lágrimas, descobri que havia, dentro de mim, um sorriso invencível. No meio do caos, descobri que havia, dentro de mim, uma calma invencível. E, finalmente descobri, no meio de um inverno, que havia dentro de mim, um verão invencível. E isso faz-me feliz. Porque isso diz-me que não importa a força com que o mundo se atira contra mim, pois dentro de mim, há algo mais forte – algo melhor, empurrando de volta.” – Albert Camus

Relato de parto

Eu não sou uma pessoa medrosa e nem preocupada. Também não sou um poço de coragem, eu só não esquento a cabeça. Tenho certeza que para todo problema existe uma solução, e no caso da minha saúde na gravidez, eu sempre disse que qualquer problema que surgisse seria um problema dos meus médicos e não meu, porque são eles quem precisariam encontrar uma solução.

Eu não era uma pessoa medrosa e nem preocupada, até que eu me tornei mãe.

Quando as contrações chegaram, eu demorei umas 3 horas para me dar conta de que eram contrações pra valer, ritmadas, e não só aquelas contrações de treinamento que eu já vinha sentido há semanas. Eram duas da manhã na madrugada do dia 19 pro dia 20 e as contrações estavam vindo a cada 10 minutos, como cólicas menstruais normais, nada demais. Até que por volta das 3 da manhã, em uma das contrações a bolsa estourou. Meu primeiro impulso foi segurar o xixi, achei que eu estava fazendo xixi na cama – porque nas últimas semanas eu fazia xixi a cada 15 minutos – mas não consegui, era muito líquido e não parava de sair, e então eu me dei conta de que era a bolsa. Avisei o A., que ligou pra médica para receber orientações e ela disse pra irmos ao hospital para avaliação, mas que dava tempo de tomar um banho tranquilo antes, terminar de arrumar a mala. Entrei no chuveiro e quando sai as contrações já estavam em um intervalo de só 4 minutos entre uma e outra e a dor intensificou. Eu quase não consegui me vestir, esquecemos varias coisas porque a mala não estava finalizada ainda mas chegamos ao hospital. A dor já estava beirando o insuportável, o exame doeu muito, e aí o pesadelo começou. Eu tinha tomado o anticoagulante meio dia, e eram 4 e meia da manhã. Eu precisava esperar até meio dia para completar 24h do remédio e eu poder tomar a anestesia da cesárea com segurança. A alternativa era anestesia geral, mas eu não estava em jejum então também corria muito risco. A anestesista não foi nem um pouco comedida em expor os riscos e ficava martelando na nossa cabeça as possibilidades de ficar paraplégica com a anestesia na coluna ou de ter complicações pela comida na anestesia geral e entubação.

A dor não me deixava pensar, mas eu sei que de repente senti muito medo, quase um terror. Eu não via saída, porque a única alternativa que me davam era aguentar aquela dor que já estava insuportável por mais muitas horas, até dar meio dia. Eram seis da manhã, eu não lembrava que tinha um bebê na minha barriga. Eu fui consumida pela dor, que eu ainda não sei explicar. Era como se todos meus ossos estivessem sendo esmagados, ou recebendo choques. Uma dor de dentro pra fora, que contaminava cada pedaço do meu corpo. As contrações de um em um minuto, eu passava um minuto inteiro gritando de dor – e eu sempre achei tão feio escândalo no hospital, e o outro minuto aterrorizada porque eu sabia que a trégua era pequena e mais uma contração chegaria e a gente ainda não tinha uma solução para um problema que no fim das contas, era só meu. Eu era a única que poderia decidir por mim e pelo meu corpo e pelos meus limites, físicos e psicológicos. Minha médica examinou, estávamos no sétimo centímetro de dilatação. Ela me perguntou se eu queria tentar um parto normal, e eu pensei por mais 3 contrações até olhar pro A. e sucumbir: eu não vou aguentar.

Mais uma vez, meu médico foi um anjo e me deu uma luz e eu optei pela anestesia geral. O alívio da decisão durou pouco, porque passei mais uma hora e meia aguardando a preparação. Mais dezenas de contrações que pareciam não ter fim. Dentro da sala de cirurgia, eu precisava ficar imóvel enquanto me preparavam, pernas e braços esticados, e as contrações vinham e o esforço para não me mover era tão desgastante quanto a dor. A colocação da sonda doeu, a assepsia na barriga doeu. Tudo doía. Eu sentia frio, eu me senti sozinha, com mais medo do que nunca, e implorei pra anestesista não deixar chegar a próxima rodada de contração. Eu não lembrava que teria uma filha, que a partir dali nada seria igual, eu só queria apagar e nunca mais sentir dor. Pedi pra ela manter o A. informado, porque ele deveria estar com muito mais medo do que eu, fiz uma promessa e respirei fundo no arzinho que me faria dormir. Senti o gelado do bisturi na minha barriga e consegui avisar que eu ainda estava sentindo tudo, e alguns segundos depois, apaguei.

Fiquei sabendo depois que em menos de 5 minutos tiraram a bebê a tempo da anestesia não chegar nela. O A. pode ver ela saindo, só não pode ficar dentro da sala pra não me ver entubada, e em seguida levaram ela pra ele conhecer e fico feliz que pelo menos ele teve a oportunidade de viver essa emoção.

Acordei da anestesia algumas horas depois e senti nitidamente meu corpo cortado. Muito desconfortável, de sonda e fralda, ainda muito grogue, sem óculos, não conseguia fazer ninguém olhar pra mim pra avisar que eu estava acordada. Quando perceberam, me trouxeram a Cecília pra eu conhecer. Mas eu não conseguia focar, só me lembro de ter ela no meu colo bem desajeitada e que ela chorava muito. Contei pra ela que aquele não era meu estado normal, porque não queria que ela se arrependesse logo de cara de ter me escolhido como mãe. De repente, senti alívio. Me dei conta de que apesar de tudo, eu e ela estávamos vivas e inteiras e que se o A. não tinha infartado na espera, tudo ficaria bem.

Levaram ela, dormi de novo. Quando acordei, me levaram pro quarto, o A. me contou tudo que aconteceu enquanto eu estava fora, e ficamos esperando a bebê chegar do berçário. Ela nasceu 07:45 com 3.285kg e 49cm. Por volta das 13:00 ela chegou e aí nos conhecemos de verdade.

Depois da euforia e alívio dos primeiros dias, conhecer a bebê e estar no hospital sendo cuidada o tempo todo, a frustração chegou, porque nada foi como eu esperava. Eu me senti fraca por não ter aguentado a dor, e mais fraca ainda porque a dor da cesárea me surpreendeu. Cheguei quase até o fim de um parto normal pra desistir e passar dias intermináveis com a dor da cesárea que é mais difícil que qualquer pós operatório que eu já passei. Me senti incapaz, frustrada, arrependida e dolorida. Chorei muito e ainda tenho choro guardado. Não sei até quando o trauma vai me assombrar, mas eu tenho uma bebê encantadora que vai ajudar a fazer essa ferida cicatrizar.