Sobre a Ceci

Hoje eu decidi que já era hora de vir aqui falar sobre a Ceci. Nada sobre meu amor de mãe, só sobre ela mesmo. Sobre o quanto ela é adorável e encantadora, engraçada e geniosa, dramática e carinhosa.

Ela faz muitas gracinhas. Eu tô lá, concentrada na minha função de mãe trocando uma fralda ou dando comidinha e de repente ela me surpreende com uma careta, uma “raivinha”, uma carinha de espanto. Ela é uma excelente companhia, e eu não sabia que isso aconteceria tão cedo. Tudo com ela é mais divertido – e mais trabalhoso e cansativo também. Ela me distrai, é entretenimento de pura qualidade: mostra os dentinhos que são muito lindinhos e tortinhos, e que nasceram primeiro só de um lado da boca que é meio esquisito mas tudo nela é maravilhoso até uma dentição fora de ordem.

Eu sei que eu pareço uma pateta, mas se você conhece a Ceci pessoalmente você sabe exatamente do que eu tô falando. Embora eu seja mãe, não sou cega, e sei que minha filha é o drama em forma de bebê. Ela é exagerada, você acha que o mundo tá acabando mas descobre que ela só queria abrir a gaveta de facas e alguém a impediu por motivos óbvios, esse tipo de coisa. Quando contrariada, ela se joga no chão, bate a cabeça no lugar mais próximo, jogando pra trás e chorando forçado. Deus me dê discernimento e sabedoria pra criar e educar essa criança, amém.

Resumindo: ela vale cada minuto do trabalho que dá.

Hoje eu chorei pela minha condição de saúde, pela primeira vez em dois anos e meio, quando tudo isso começou. Chorei sentida, chorei todo o medo, toda a preocupação, toda a frustração de ter um corpo que não funciona como deveria. Aquele choro que a gente chora com o corpo todo, aquele choro que grita em silêncio, que faz perder o ar, soluçando baixinho até acalmar.

Chorei depois de receber o resultado de mais um exame, e percebi que ingenuamente eu depositei muitas esperanças em um laudo positivo: queria ler que o que era ruim continuava ruim, mas estável. E torcia para que algo aparecesse que fosse passível de solução, para me aliviar das dores de uma vez por todas, o que não aconteceu. O que era ruim ficou pior, e as dores não têm previsão de melhora.

Enquanto isso, os exames genéticos continuam sendo feitos, muito dinheiro sendo gasto, muito tempo em salas de espera, em consultas, em estudo tentando entender melhor o que acontece comigo.

E por tudo isso, hoje eu chorei como nunca. Continuarei positiva, continuarei confiante, continuarei não questionando e não ressentindo. Mas só amanhã. Por hoje, enquanto abraçava minha bebezinha pra ela dormir, me permiti sentir triste e colocar pra fora essa dor emocional que não tem remédio. Recebi carinho, amor e conforto do A., e depois de uma noite de sono com o abraço dele carregando minhas energias, amanhã começamos tudo de novo.

@depoisdaceci

Eu ainda não consegui escrever sobre a Cecília.

Penso sempre em registrar como foram esses primeiros meses, como a gente se conheceu, como a gente criou nosso laço, o quanto ela é brava, um pouco dramática, extremamente carinhosa. Mas nada nunca parece suficiente.

Um filho é realmente tudo que dizem, é a soma de todos os clichês. E enquanto eu padeço aqui nesse paraíso, criei o @depoisdaceci pra tentar não esquecer de como as coisas têm sido nessa fase por aqui.

quote – April Kepner

What hurts us is cumulative. It happens over time. We absorb blow after blow, shock after shock, painful hit after hit.

But even then, even if we know exactly how we got here… it doesn’t mean we can fix it.

You can’t heal every wound. And that’s okay. I have to believe it’s okay.

I have to believe that even if something seems like it cannot be fixed… it doesn’t mean it’s broken.