Diário da gravidez: 35 semanas

Eu estou MUITO grávida.

Nunca me imaginei assim tão grávida. Sei lá o que isso significa, mas acho que o que impressiona é o tamanho da barriga. Depois que eu emagreci eu fiquei toda pequenininha e aí o barrigão se destaca.

Se não fosse o problema com a vesícula, eu acho que estaria me saindo muito bem, fisicamente. Está tudo correndo da forma que deveria e faltam só 4 semanas pra passarmos de fase.

Psicologicamente as coisas não estão tão bem assim. O falecimento do meu avô no dia dos pais me desestabilizou porque o sofrimento veio em doses homeopáticas, e além do luto fui invadida por uma tristeza profunda em relação a tudo. Muito choro, muito sofrimento, muito medo do abandono, muita rejeição pelo meu próprio corpo que mudou muito, muito grude no A. que mal pode levantar da cama pra ir ao banheiro no meio da noite que eu já acordo no susto com medo de ficar sozinha. Sinto um certo desconforto, que não chega a ser culpa, quando me perguntam se eu estou muito ansiosa e eu digo que não. Não quero que a bebê nasça ainda. Mas também não quero que ela fique aqui mais muito tempo. Meu corpo está cansado, com muitas dores, e eu tenho uma cabeça judiada por tantos meses de preocupação nessa gravidez de tanto risco e muito esforço pra ser forte e levar as coisas com leveza até agora. No fim do dia, sinto que sou um estorvo para as pessoas mais próximas, que eu não trago nada além de preocupação, e isso tem acabado comigo ao mesmo tempo que eu me sinto maravilhosa por ser capaz de produzir uma pessoinha dentro de mim.

Nada faz muito sentido, é realmente uma avalanche de sentimentos que eu não consigo organizar, e acabo chorando muito em muitas madrugadas que eu não consigo dormir porque a cabeça não deixa o corpo descansar.

Hoje começo uma medicação leve para aliviar essa angústia, na torcida de que funcione e eu não deixe de aproveitar essa fase e essa experiência que tudo indica que será única na minha vida. Amém? Amém.

Diário da gravidez: 31 semanas

Agora o tempo tá passando muito rápido!

Sinto que eu e a bebê já nos conhecemos mais. Eu percebo alguns padrões de comportamento dela e as mexidas agora são empurrões, chutes, mortais carpados. Ela chega a me machucar de verdade. Quando tô deitada só curtindo a barriga adoro quando ela mexe, mas se eu tô trabalhando ou conversando ela sinceramente me atrapalha um pouco, tira minha concentração. Ao mesmo tempo, já sofro por antecipação de saudade da barriga. Eu tô amando muito a minha barriga, e em contrapartida o conceito de amor pela bebê ainda é muito confuso. Amo a ideia de ter, cuidar, amar, proteger. Mas amor amor amor ainda não bateu aqui.

Ao contrário das contrações de treinamento, que bateram com tudo. É esquisito saber que é uma contração, apesar de não doer parece que trava o corpo inteiro, endurece a barriga e parece que a bebê prende a respiração até passar.

Como na minha vida sempre aparece alguma novidade médica, nos últimos dois dias descobri que essas contrações com essa intensidade não são tão normais assim e meu corpo está se preparando para dilatar e deixar a bebê nascer. Ela, por sua vez, esta encaixada forçando a cabeça pra baixo, querendo sair. Eu não quero que nada disso aconteça tão cedo e estou oficialmente de repouso, para segurar ela aqui dentro o máximo de tempo possível. De bônus, tive mais uma crise de dor e descobrimos então que é vesícula. Mais uma cirurgia pra minha lista de coisas a fazer depois que ela nascer, junto com a biópsia de medula e a hérnia no umbigo.

A parte boa é que o quartinho dela está finalmente ficando pronto, o que torna tudo ainda mais real – porque às vezes eu ainda duvido de que isso tudo tá acontecendo.

Antes de engravidar da Ceci, eu não pedi pra Deus um bebê. Eu rezava e pedia pra Deus preencher meu coração, porque embora eu tivesse tudo, eu sentia que faltava alguma coisa, um pedacinho. E aí ele nos mandou a Cecília: uma bebê fortinha, resiliente, que está cada dia melhor e mais saudável nesse corpo da mamãe que não colabora muito e cria muitas preocupações. Mas ela nem liga. Agora só peço pra Deus que ela continue assim: cheia de luz, energia e alegria mesmo que a vida não seja sempre fácil. 31 semanas, 43cm e 1,900kg de Ceci por enquanto, e eu quero muito mais. 💜

Diário de gravidez: 24 semanas

Sinto que essa fase, até a barriga começar a pesar, vai ser a melhor da gravidez. A bebê mexe muito e isso ajuda muito no meu humor. Coincidentemente ou não, ela reage a algumas coisas, o Alê sempre conversa com ela e ela “responde”, ela se mexe quando a gente cutuca. Essa interação torna tudo mais real e mais prazeroso. A barriga ficou bem grande, muito mais do que imaginei pra esse período, e eu tenho certeza que vou sentir muita saudade do forninho porque já começo a ficar com medo da gravidez não chegar até o fim e eu ficar barriguda menos tempo do que eu gostaria – além dos outros medos envolvidos nessa questão.

O caos das últimas semanas foi uma gripe tenebrosa junto com a mudança de apartamento. Eu não sabia que gripes poderiam ser tão ruins e não poder tomar remédios para aliviar os sintomas foi algo que me tirou do sério e eu fiquei extremamente rabugenta. Enquanto isso, a mudança de casa rolava, a reforma do apto novo, a entrega do antigo, os novos móveis e o transtorno esperado pra uma mudança. Fiz muito mais esforço do que deveria, fiquei extremamente cansada e quanto a mudança estava acabando precisei cobrir férias no trabalho e o volume de tarefas aumentou e eu simplesmente não consegui descansar. No meio disso eu fiz aniversário e nem consegui ligar muito pra isso, com tanta coisa acontecendo. Enquanto isso, meu corpo deu sinais de que não quer colaborar tanto assim: tive a dose de anticoagulante aumentada duas vezes, e tudo indica que aumentaremos mais uma vez nos próximos 15 dias porque precisamos afastar o risco de uma trombose mais que nunca. Estou sendo disciplinada nos exames, nas reposições do sangue, nas injeções e no peso mas realmente tem coisas que não dependem só da nossa boa vontade.

O que eu não posso mudar eu aceito e confio, como sempre. O pedido dessa semana é só manter a bebê aqui, segura e fortinha, pelo máximo de tempo possível. Ela já vai nascer sabendo o que é resiliência porque só com muita determinação pra se manter saudável dentro desse forninho que nem funciona bem.

Diário de gravidez: 19 semanas

Desde que decidi engravidar eu tenho pesquisado loucamente sobre gestação em geral, não só os casos de risco. Me rendi ao YouTube, assisti dezenas de diários de gravidez e uma das coisas que todos os relatos têm em comum é que a gravidez de fato muda tudo. E eu não compreendia até que ponto as coisas mudariam, mas elas mudam, todas elas, pra valer.

Além de toda a mudança física, afinal precisa abrir espaço aqui dentro pro bichinho crescer e se desenvolver e tudo que envolve esse processo, o psicológico entra em parafuso. Principalmente nessa altura em que não dá mais pra esquecer que eu sou uma pessoa grávida, e que tem um bebê que já até parece um bebê aqui dentro que sente tudo que eu sinto. Estando grávida, ficar triste e nervosa é diferente, porque meu instinto de proteção é privar a bebezinha de sentir essas coisas ruins então eu tento ao máximo não digerir essas emoções e eventualmente, esquecer. Deixar pra lá. Algumas coisas são mais fáceis de serem deixadas de lado porque em perspectiva, o que é tão importante quanto meu bebê crescendo com saúde? O mundo não pega mais leve só porque você precisa, os problemas não vem menos graves e as pessoas não tem esse instinto de preservação que você precisa ter.

Eu não durmo mais noites inteiras. Acordo repetidas vezes, ou porque ela mexeu muito ou porque mexeu pouco. Ou porque o xixi agora é de hora em hora. Ou porque eu sinto as minhas dores que me impedem de ter uma posição confortável. Ou porque acordo no susto sem conseguir lembrar se tomei a injeção, e eu vou apalpando a barriga até sentir o doloridinho da picada. Ou porque apesar de não ter ganhado peso nenhum a minha lombar está sentindo os efeitos da gravidez e fica dando umas fisgadas malucas. Ou porque minha consciência me acorda dizendo: menina, você vai ser mãe! e gente, ainda sou só uma menina. Tenho medo de não dar conta, medo de não aguentar o cansaço, a privação do sono, a responsabilidade. Medo de me recuperar da cesárea, apesar de tantas cirurgias eu nunca fiz uma de corte, nunca tomei essa anestesia. Medo de ser desagradável com quem tentar me ajudar, medo de perder o controle, medo da minha casa estar sempre uma zona e eu sempre com a impressão de que preciso tomar um banho. Medo dos meus cachorros sentirem muito a minha falta, medo de não querer mais trabalhar, medo.

E no meio de tudo isso, fico aqui namorando a minha barriguinha. Apesar de tudo, me sinto amada e forte.

Diário de gravidez: 9 – 16 semanas

Eu não botava muita fé, mas realmente depois das 12 semanas muita coisa muda. Os enjoos e a azia dão uma boa trégua e o alívio de ter concluído a primeira fase com sucesso é inexplicável. Sai do ultrassom das 12 semanas, que é mais detalhado e já consegue prever alguns problemas – ou a ausência deles, muito mais leve. Tranquila não estou nunca, porque vencer uma fase significa que a próxima começou e com ela novas preocupações, mas definitivamente mais leve.

Das 12 semanas pra cá ficou real o lance de que o meu corpo não é mais só meu. A bebê começou a mexer (confirmadíssimo que é menina, aliás, depois de duas sexagens e três ultras) e no início achei que eram gases mas depois lembrei que estou grávida e que só podia ser ela agitadinha. É legal, mas bem esquisito. Ganhei também uma rinite gravídica, enquanto a única coisa que eu me orgulhava da minha saúde era minha falta de problemas respiratórios.

Com 15 semanas, acabei indo para o pronto socorro por uma dor intensa no abdômen. Com a gravidez estava tudo bem, mas a dor não cedia aos remédios e com isso acabaram me internando na UTI por medo de uma nova trombose aparecer. Tive que decidir entre correr o risco de fazer uma ressonância com contraste, que talvez pudesse prejudicar a bebê, ou ficar no escuro sem saber como meu corpo estava se comportando – ele não tem um bom histórico. Nessas horas a realidade cai como uma pedra na cabeça, e haja coragem para assumir o risco do exame porque afinal de contas, a prioridade ainda sou eu e a minha saúde. Não existe bebê sem mim nesse estágio, e arriscar comprometer minha saúde é arriscar nós duas.

Não deu nada no exame, o que não parecia nem bom nem ruim, mas é impressionante como a equipe médica é receosa desse tipo de problema. Quiseram dobrar a minha dose de anticoagulante por precaução, mas eu sei que seria perigoso porque minhas plaquetas já estavam em 65 mil. Me neguei, pedi opinião do especialista que chegou e disse que eu tinha razão, e no fim tratei a dor como gastrite e tudo anda bem até agora. Só na torcida das plaquetas reagirem e ficarem ao menos acima dos 85 mil até o terceiro trimestre chegar.

As dores são constantes, o cansaço ainda pesa, o desconforto é grande. Confesso que não achei que seria tão difícil. Fico imaginando como será ser grávida sem esses problemas que eu tenho, mas ao mesmo tempo sinto que está passando rápido e sei que vou sentir falta dessa fase, porque essa muito provavelmente seria minha única gravidez até o fim.

Ainda não consigo imaginar uma vida com um bebê. Por mais que façamos planos, que adaptemos nossa vida toda para a chegada dela: rotina, trabalho, mudança de casa, ainda não me parece real. Mas ao menos agora eu esqueço menos que estou grávida, até porque a barriga começou a aparecer e eu precisei adaptar todas as calças pra caber essa pancinha.

As complicações de saúde desanimam um pouco, pesam mais do que eu gostaria, mas sigo confiante… dizem que esse segundo trimestre é o mais fácil de curtir, então vou tentar aproveitar. É o plano pras próximas semanas. Amém? Amém.