“No meio do ódio, descobri que havia, dentro de mim, um amor invencível. No meio das lágrimas, descobri que havia, dentro de mim, um sorriso invencível. No meio do caos, descobri que havia, dentro de mim, uma calma invencível. E, finalmente descobri, no meio de um inverno, que havia dentro de mim, um verão invencível. E isso faz-me feliz. Porque isso diz-me que não importa a força com que o mundo se atira contra mim, pois dentro de mim, há algo mais forte – algo melhor, empurrando de volta.” – Albert Camus

Relato de parto

Eu não sou uma pessoa medrosa e nem preocupada. Também não sou um poço de coragem, eu só não esquento a cabeça. Tenho certeza que para todo problema existe uma solução, e no caso da minha saúde na gravidez, eu sempre disse que qualquer problema que surgisse seria um problema dos meus médicos e não meu, porque são eles quem precisariam encontrar uma solução.

Eu não era uma pessoa medrosa e nem preocupada, até que eu me tornei mãe.

Quando as contrações chegaram, eu demorei umas 3 horas para me dar conta de que eram contrações pra valer, ritmadas, e não só aquelas contrações de treinamento que eu já vinha sentido há semanas. Eram duas da manhã na madrugada do dia 19 pro dia 20 e as contrações estavam vindo a cada 10 minutos, como cólicas menstruais normais, nada demais. Até que por volta das 3 da manhã, em uma das contrações a bolsa estourou. Meu primeiro impulso foi segurar o xixi, achei que eu estava fazendo xixi na cama – porque nas últimas semanas eu fazia xixi a cada 15 minutos – mas não consegui, era muito líquido e não parava de sair, e então eu me dei conta de que era a bolsa. Avisei o A., que ligou pra médica para receber orientações e ela disse pra irmos ao hospital para avaliação, mas que dava tempo de tomar um banho tranquilo antes, terminar de arrumar a mala. Entrei no chuveiro e quando sai as contrações já estavam em um intervalo de só 4 minutos entre uma e outra e a dor intensificou. Eu quase não consegui me vestir, esquecemos varias coisas porque a mala não estava finalizada ainda mas chegamos ao hospital. A dor já estava beirando o insuportável, o exame doeu muito, e aí o pesadelo começou. Eu tinha tomado o anticoagulante meio dia, e eram 4 e meia da manhã. Eu precisava esperar até meio dia para completar 24h do remédio e eu poder tomar a anestesia da cesárea com segurança. A alternativa era anestesia geral, mas eu não estava em jejum então também corria muito risco. A anestesista não foi nem um pouco comedida em expor os riscos e ficava martelando na nossa cabeça as possibilidades de ficar paraplégica com a anestesia na coluna ou de ter complicações pela comida na anestesia geral e entubação.

A dor não me deixava pensar, mas eu sei que de repente senti muito medo, quase um terror. Eu não via saída, porque a única alternativa que me davam era aguentar aquela dor que já estava insuportável por mais muitas horas, até dar meio dia. Eram seis da manhã, eu não lembrava que tinha um bebê na minha barriga. Eu fui consumida pela dor, que eu ainda não sei explicar. Era como se todos meus ossos estivessem sendo esmagados, ou recebendo choques. Uma dor de dentro pra fora, que contaminava cada pedaço do meu corpo. As contrações de um em um minuto, eu passava um minuto inteiro gritando de dor – e eu sempre achei tão feio escândalo no hospital, e o outro minuto aterrorizada porque eu sabia que a trégua era pequena e mais uma contração chegaria e a gente ainda não tinha uma solução para um problema que no fim das contas, era só meu. Eu era a única que poderia decidir por mim e pelo meu corpo e pelos meus limites, físicos e psicológicos. Minha médica examinou, estávamos no sétimo centímetro de dilatação. Ela me perguntou se eu queria tentar um parto normal, e eu pensei por mais 3 contrações até olhar pro A. e sucumbir: eu não vou aguentar.

Mais uma vez, meu médico foi um anjo e me deu uma luz e eu optei pela anestesia geral. O alívio da decisão durou pouco, porque passei mais uma hora e meia aguardando a preparação. Mais dezenas de contrações que pareciam não ter fim. Dentro da sala de cirurgia, eu precisava ficar imóvel enquanto me preparavam, pernas e braços esticados, e as contrações vinham e o esforço para não me mover era tão desgastante quanto a dor. A colocação da sonda doeu, a assepsia na barriga doeu. Tudo doía. Eu sentia frio, eu me senti sozinha, com mais medo do que nunca, e implorei pra anestesista não deixar chegar a próxima rodada de contração. Eu não lembrava que teria uma filha, que a partir dali nada seria igual, eu só queria apagar e nunca mais sentir dor. Pedi pra ela manter o A. informado, porque ele deveria estar com muito mais medo do que eu, fiz uma promessa e respirei fundo no arzinho que me faria dormir. Senti o gelado do bisturi na minha barriga e consegui avisar que eu ainda estava sentindo tudo, e alguns segundos depois, apaguei.

Fiquei sabendo depois que em menos de 5 minutos tiraram a bebê a tempo da anestesia não chegar nela. O A. pode ver ela saindo, só não pode ficar dentro da sala pra não me ver entubada, e em seguida levaram ela pra ele conhecer e fico feliz que pelo menos ele teve a oportunidade de viver essa emoção.

Acordei da anestesia algumas horas depois e senti nitidamente meu corpo cortado. Muito desconfortável, de sonda e fralda, ainda muito grogue, sem óculos, não conseguia fazer ninguém olhar pra mim pra avisar que eu estava acordada. Quando perceberam, me trouxeram a Cecília pra eu conhecer. Mas eu não conseguia focar, só me lembro de ter ela no meu colo bem desajeitada e que ela chorava muito. Contei pra ela que aquele não era meu estado normal, porque não queria que ela se arrependesse logo de cara de ter me escolhido como mãe. De repente, senti alívio. Me dei conta de que apesar de tudo, eu e ela estávamos vivas e inteiras e que se o A. não tinha infartado na espera, tudo ficaria bem.

Levaram ela, dormi de novo. Quando acordei, me levaram pro quarto, o A. me contou tudo que aconteceu enquanto eu estava fora, e ficamos esperando a bebê chegar do berçário. Ela nasceu 07:45 com 3.285kg e 49cm. Por volta das 13:00 ela chegou e aí nos conhecemos de verdade.

Depois da euforia e alívio dos primeiros dias, conhecer a bebê e estar no hospital sendo cuidada o tempo todo, a frustração chegou, porque nada foi como eu esperava. Eu me senti fraca por não ter aguentado a dor, e mais fraca ainda porque a dor da cesárea me surpreendeu. Cheguei quase até o fim de um parto normal pra desistir e passar dias intermináveis com a dor da cesárea que é mais difícil que qualquer pós operatório que eu já passei. Me senti incapaz, frustrada, arrependida e dolorida. Chorei muito e ainda tenho choro guardado. Não sei até quando o trauma vai me assombrar, mas eu tenho uma bebê encantadora que vai ajudar a fazer essa ferida cicatrizar.

Diário da gravidez: 35 semanas

Eu estou MUITO grávida.

Nunca me imaginei assim tão grávida. Sei lá o que isso significa, mas acho que o que impressiona é o tamanho da barriga. Depois que eu emagreci eu fiquei toda pequenininha e aí o barrigão se destaca.

Se não fosse o problema com a vesícula, eu acho que estaria me saindo muito bem, fisicamente. Está tudo correndo da forma que deveria e faltam só 4 semanas pra passarmos de fase.

Psicologicamente as coisas não estão tão bem assim. O falecimento do meu avô no dia dos pais me desestabilizou porque o sofrimento veio em doses homeopáticas, e além do luto fui invadida por uma tristeza profunda em relação a tudo. Muito choro, muito sofrimento, muito medo do abandono, muita rejeição pelo meu próprio corpo que mudou muito, muito grude no A. que mal pode levantar da cama pra ir ao banheiro no meio da noite que eu já acordo no susto com medo de ficar sozinha. Sinto um certo desconforto, que não chega a ser culpa, quando me perguntam se eu estou muito ansiosa e eu digo que não. Não quero que a bebê nasça ainda. Mas também não quero que ela fique aqui mais muito tempo. Meu corpo está cansado, com muitas dores, e eu tenho uma cabeça judiada por tantos meses de preocupação nessa gravidez de tanto risco e muito esforço pra ser forte e levar as coisas com leveza até agora. No fim do dia, sinto que sou um estorvo para as pessoas mais próximas, que eu não trago nada além de preocupação, e isso tem acabado comigo ao mesmo tempo que eu me sinto maravilhosa por ser capaz de produzir uma pessoinha dentro de mim.

Nada faz muito sentido, é realmente uma avalanche de sentimentos que eu não consigo organizar, e acabo chorando muito em muitas madrugadas que eu não consigo dormir porque a cabeça não deixa o corpo descansar.

Hoje começo uma medicação leve para aliviar essa angústia, na torcida de que funcione e eu não deixe de aproveitar essa fase e essa experiência que tudo indica que será única na minha vida. Amém? Amém.

Diário da gravidez: 31 semanas

Agora o tempo tá passando muito rápido!

Sinto que eu e a bebê já nos conhecemos mais. Eu percebo alguns padrões de comportamento dela e as mexidas agora são empurrões, chutes, mortais carpados. Ela chega a me machucar de verdade. Quando tô deitada só curtindo a barriga adoro quando ela mexe, mas se eu tô trabalhando ou conversando ela sinceramente me atrapalha um pouco, tira minha concentração. Ao mesmo tempo, já sofro por antecipação de saudade da barriga. Eu tô amando muito a minha barriga, e em contrapartida o conceito de amor pela bebê ainda é muito confuso. Amo a ideia de ter, cuidar, amar, proteger. Mas amor amor amor ainda não bateu aqui.

Ao contrário das contrações de treinamento, que bateram com tudo. É esquisito saber que é uma contração, apesar de não doer parece que trava o corpo inteiro, endurece a barriga e parece que a bebê prende a respiração até passar.

Como na minha vida sempre aparece alguma novidade médica, nos últimos dois dias descobri que essas contrações com essa intensidade não são tão normais assim e meu corpo está se preparando para dilatar e deixar a bebê nascer. Ela, por sua vez, esta encaixada forçando a cabeça pra baixo, querendo sair. Eu não quero que nada disso aconteça tão cedo e estou oficialmente de repouso, para segurar ela aqui dentro o máximo de tempo possível. De bônus, tive mais uma crise de dor e descobrimos então que é vesícula. Mais uma cirurgia pra minha lista de coisas a fazer depois que ela nascer, junto com a biópsia de medula e a hérnia no umbigo.

A parte boa é que o quartinho dela está finalmente ficando pronto, o que torna tudo ainda mais real – porque às vezes eu ainda duvido de que isso tudo tá acontecendo.

Antes de engravidar da Ceci, eu não pedi pra Deus um bebê. Eu rezava e pedia pra Deus preencher meu coração, porque embora eu tivesse tudo, eu sentia que faltava alguma coisa, um pedacinho. E aí ele nos mandou a Cecília: uma bebê fortinha, resiliente, que está cada dia melhor e mais saudável nesse corpo da mamãe que não colabora muito e cria muitas preocupações. Mas ela nem liga. Agora só peço pra Deus que ela continue assim: cheia de luz, energia e alegria mesmo que a vida não seja sempre fácil. 31 semanas, 43cm e 1,900kg de Ceci por enquanto, e eu quero muito mais. 💜

Diário de gravidez: 24 semanas

Sinto que essa fase, até a barriga começar a pesar, vai ser a melhor da gravidez. A bebê mexe muito e isso ajuda muito no meu humor. Coincidentemente ou não, ela reage a algumas coisas, o Alê sempre conversa com ela e ela “responde”, ela se mexe quando a gente cutuca. Essa interação torna tudo mais real e mais prazeroso. A barriga ficou bem grande, muito mais do que imaginei pra esse período, e eu tenho certeza que vou sentir muita saudade do forninho porque já começo a ficar com medo da gravidez não chegar até o fim e eu ficar barriguda menos tempo do que eu gostaria – além dos outros medos envolvidos nessa questão.

O caos das últimas semanas foi uma gripe tenebrosa junto com a mudança de apartamento. Eu não sabia que gripes poderiam ser tão ruins e não poder tomar remédios para aliviar os sintomas foi algo que me tirou do sério e eu fiquei extremamente rabugenta. Enquanto isso, a mudança de casa rolava, a reforma do apto novo, a entrega do antigo, os novos móveis e o transtorno esperado pra uma mudança. Fiz muito mais esforço do que deveria, fiquei extremamente cansada e quanto a mudança estava acabando precisei cobrir férias no trabalho e o volume de tarefas aumentou e eu simplesmente não consegui descansar. No meio disso eu fiz aniversário e nem consegui ligar muito pra isso, com tanta coisa acontecendo. Enquanto isso, meu corpo deu sinais de que não quer colaborar tanto assim: tive a dose de anticoagulante aumentada duas vezes, e tudo indica que aumentaremos mais uma vez nos próximos 15 dias porque precisamos afastar o risco de uma trombose mais que nunca. Estou sendo disciplinada nos exames, nas reposições do sangue, nas injeções e no peso mas realmente tem coisas que não dependem só da nossa boa vontade.

O que eu não posso mudar eu aceito e confio, como sempre. O pedido dessa semana é só manter a bebê aqui, segura e fortinha, pelo máximo de tempo possível. Ela já vai nascer sabendo o que é resiliência porque só com muita determinação pra se manter saudável dentro desse forninho que nem funciona bem.