Diário de gravidez: 19 semanas

Desde que decidi engravidar eu tenho pesquisado loucamente sobre gestação em geral, não só os casos de risco. Me rendi ao YouTube, assisti dezenas de diários de gravidez e uma das coisas que todos os relatos têm em comum é que a gravidez de fato muda tudo. E eu não compreendia até que ponto as coisas mudariam, mas elas mudam, todas elas, pra valer.

Além de toda a mudança física, afinal precisa abrir espaço aqui dentro pro bichinho crescer e se desenvolver e tudo que envolve esse processo, o psicológico entra em parafuso. Principalmente nessa altura em que não dá mais pra esquecer que eu sou uma pessoa grávida, e que tem um bebê que já até parece um bebê aqui dentro que sente tudo que eu sinto. Estando grávida, ficar triste e nervosa é diferente, porque meu instinto de proteção é privar a bebezinha de sentir essas coisas ruins então eu tento ao máximo não digerir essas emoções e eventualmente, esquecer. Deixar pra lá. Algumas coisas são mais fáceis de serem deixadas de lado porque em perspectiva, o que é tão importante quanto meu bebê crescendo com saúde? O mundo não pega mais leve só porque você precisa, os problemas não vem menos graves e as pessoas não tem esse instinto de preservação que você precisa ter.

Eu não durmo mais noites inteiras. Acordo repetidas vezes, ou porque ela mexeu muito ou porque mexeu pouco. Ou porque o xixi agora é de hora em hora. Ou porque eu sinto as minhas dores que me impedem de ter uma posição confortável. Ou porque acordo no susto sem conseguir lembrar se tomei a injeção, e eu vou apalpando a barriga até sentir o doloridinho da picada. Ou porque apesar de não ter ganhado peso nenhum a minha lombar está sentindo os efeitos da gravidez e fica dando umas fisgadas malucas. Ou porque minha consciência me acorda dizendo: menina, você vai ser mãe! e gente, ainda sou só uma menina. Tenho medo de não dar conta, medo de não aguentar o cansaço, a privação do sono, a responsabilidade. Medo de me recuperar da cesárea, apesar de tantas cirurgias eu nunca fiz uma de corte, nunca tomei essa anestesia. Medo de ser desagradável com quem tentar me ajudar, medo de perder o controle, medo da minha casa estar sempre uma zona e eu sempre com a impressão de que preciso tomar um banho. Medo dos meus cachorros sentirem muito a minha falta, medo de não querer mais trabalhar, medo.

E no meio de tudo isso, fico aqui namorando a minha barriguinha. Apesar de tudo, me sinto amada e forte.

Diário de gravidez: 9 – 16 semanas

Eu não botava muita fé, mas realmente depois das 12 semanas muita coisa muda. Os enjoos e a azia dão uma boa trégua e o alívio de ter concluído a primeira fase com sucesso é inexplicável. Sai do ultrassom das 12 semanas, que é mais detalhado e já consegue prever alguns problemas – ou a ausência deles, muito mais leve. Tranquila não estou nunca, porque vencer uma fase significa que a próxima começou e com ela novas preocupações, mas definitivamente mais leve.

Das 12 semanas pra cá ficou real o lance de que o meu corpo não é mais só meu. A bebê começou a mexer (confirmadíssimo que é menina, aliás, depois de duas sexagens e três ultras) e no início achei que eram gases mas depois lembrei que estou grávida e que só podia ser ela agitadinha. É legal, mas bem esquisito. Ganhei também uma rinite gravídica, enquanto a única coisa que eu me orgulhava da minha saúde era minha falta de problemas respiratórios.

Com 15 semanas, acabei indo para o pronto socorro por uma dor intensa no abdômen. Com a gravidez estava tudo bem, mas a dor não cedia aos remédios e com isso acabaram me internando na UTI por medo de uma nova trombose aparecer. Tive que decidir entre correr o risco de fazer uma ressonância com contraste, que talvez pudesse prejudicar a bebê, ou ficar no escuro sem saber como meu corpo estava se comportando – ele não tem um bom histórico. Nessas horas a realidade cai como uma pedra na cabeça, e haja coragem para assumir o risco do exame porque afinal de contas, a prioridade ainda sou eu e a minha saúde. Não existe bebê sem mim nesse estágio, e arriscar comprometer minha saúde é arriscar nós duas.

Não deu nada no exame, o que não parecia nem bom nem ruim, mas é impressionante como a equipe médica é receosa desse tipo de problema. Quiseram dobrar a minha dose de anticoagulante por precaução, mas eu sei que seria perigoso porque minhas plaquetas já estavam em 65 mil. Me neguei, pedi opinião do especialista que chegou e disse que eu tinha razão, e no fim tratei a dor como gastrite e tudo anda bem até agora. Só na torcida das plaquetas reagirem e ficarem ao menos acima dos 85 mil até o terceiro trimestre chegar.

As dores são constantes, o cansaço ainda pesa, o desconforto é grande. Confesso que não achei que seria tão difícil. Fico imaginando como será ser grávida sem esses problemas que eu tenho, mas ao mesmo tempo sinto que está passando rápido e sei que vou sentir falta dessa fase, porque essa muito provavelmente seria minha única gravidez até o fim.

Ainda não consigo imaginar uma vida com um bebê. Por mais que façamos planos, que adaptemos nossa vida toda para a chegada dela: rotina, trabalho, mudança de casa, ainda não me parece real. Mas ao menos agora eu esqueço menos que estou grávida, até porque a barriga começou a aparecer e eu precisei adaptar todas as calças pra caber essa pancinha.

As complicações de saúde desanimam um pouco, pesam mais do que eu gostaria, mas sigo confiante… dizem que esse segundo trimestre é o mais fácil de curtir, então vou tentar aproveitar. É o plano pras próximas semanas. Amém? Amém.

Diário de gravidez: 9 semanas

Eu sinto minhas pernas fadigadas logo no banho de manhã, um cansaço extremo que me dá vontade de lavar meu cabelo de qualquer jeito, e junta com o enjoo que bate forte porque a vizinha começa a cozinhar o almoço cedo e vem um cheiro de tempero de feijão doido dentro do box que mistura com o cheiro do meu sabonete e eu passo o banho inteiro oscilando entre querer comer feijão e querendo gorfar porque a pasta de dente me deixa completamente enojada.

Depois do almoço, quando o enjoo passa, eu sinto vontade de comer tudo e percebi que as maiores vontades até agora tiveram algo a ver com memórias afetivas. Uma delas foi sorvete de abacaxi ao vinho do mania de sorvete que eu comia loucamente há uns 12, 13 anos. A segunda foi um sanduíche normal de presunto e queijo no pão de forma mas eu queria no formato que ficava quando colocávamos naquelas máquinas de esquentar o lanche que tinha em casa que deixava o pão em formato de 2 triângulos e formava casquinha. O sorvete minha mãe deu um jeito de me trazer mas o formato do pão eu nem contei pra ninguém porque às vezes dá até uma vergoinha.

Além de vontades normais. Tipo agora que é domingo à noite e eu não vejo a hora de chegar amanhã no almoço pra eu comer arroz feijão e ovo frito com gema mole por cima. Tipo sushi que eu fiquei com vontade por duas semanas e comi 4 pecinhas num rodízio de 80 reais e não aguentei mais. Foram quase 3kg perdidos até agora e eu espero encontrá-los de volta porque eu tô me sentindo esquisita de tão magra.

No ultrassom de 9 semanas já conseguimos ver o formato de um quase bebê: cabeção + corpinho + bolinhas no lugar das perninhas e bracinhos. E a melhor parte depois de ouvir um coração batendo a quase 180 por minuto, foi ver a bebê se mexendo. Passamos o dia rindo à toa, só lembrando do corpinho com menos de 3cm remexendo.

A sexagem fetal deu menina, então descobrimos que a Cecília está a caminho. Para comemorar, compramos uma pulseira daquelas que gravam o nome do bebê e um mini brinco de mini pérola que eu achei uma gracinha. O único problema é que eu não acredito que seja menina. Não sei se a) coitada, fiquei doida de vez; b) estou com dificuldades de aceitar que essa gravidez é real e tá tudo acontecendo pra valer; c) existe um sexto sentido de mãe aparecendo por aqui porque desde que descobri essa gravidez eu acho que é um menino. O tempo vai dizer.

Minha saúde está tão bem quanto poderia estar. Como o médico diz: na corda bamba entre a hemorragia e a trombose, continuamos com os acompanhamentos bem de perto. Tomando as injeções de anticoagulante na barriga todos os dias, progesterona, acido fólico e muitas vitaminas. Ignorando o baço grande, a doença do fígado, as tromboses e as varizes no estômago: esses aí vão precisar esperar a vez deles de serem cuidados. De olho nas plaquetas que estão em 87 mil, sempre torcendo pro melhor, com muita fé e confiança. Meu único medo é de algo acontecer com a bebê. Comigo, nunca temi e continuo assim.

Sinto falta de tomar remédios e percebi que eu realmente tomo muitos remédios desnecessariamente. Na gravidez não posso tomar nada, só coisa tipo paracetamol que honestamente não me dá efeito nenhum. É algo que eu preciso manter depois do bebê nascer.

Me sinto feliz, bem cuidada, bem assistida, muito amada e muito especial. Que venham mais muitas semanas para registrar aqui, até o meu bebê arco íris chegar. Amém.

Let’s give it a try

Tentar engravidar é uma das coisas mais estressantes que eu já vivi. É tanta expectativa e ansiedade que deixam nossos nervos em frangalhos e os dias parecem durar pra sempre. São dezenas de testes de ovulação, tabelinhas, pequenas comemorações em perceber que o corpo está agindo como ele deveria e uma vontade de ser uma adolescente cheia de planos promissores porque essas parecem engravidar a qualquer espirro. Esse drama todo levando em conta que eu engravidei no segundo ciclo das tentativas, um mês e meio depois que decidimos: vamos tentar.

14/01

Um dia depois da ovulação. Deixei o Sirius deitado em cima da minha barriga pra me ajudar a chocar nosso ovinho e torcer pro melhor. Gruda aí, ovinho.

22/01

Sirius não dormiu na minha barriga. Na outra gravidez ele fez a mesma coisa. Seria um sinal? Nessa hora a gente se agarra a qualquer possibilidade.

24/01

Foram dez dias intermináveis. Comecei a sentir muita vontade de comer, um sono fora do normal e vontade de fazer xixi a cada hora (eu geralmente faço umas 3, 4 vezes por dia). Fica a dúvida se são sinais ou se é a minha cabeça que muito quer sentir todas essas coisas. Decidi fazer um exame de sangue. Se colher até 11 da manhã o resultado sai no mesmo dia. Colhi 11:06. Droga, só amanhã.

Quase onze da noite minha irmã me chama no vídeo e o Jorge aparece e diz “vem aqui!”. Conversamos, desligamos, e eu chorei de saudade do meu sobrinho. Um choro sentido, e por mais que eu ame meu sobrinho de paixão achei um pouco exagerado. Será que é mais um sinal? Abri o site do laboratório, vai que? Foi. Tava lá. Não era um super positivo mas também não era um negativo, e eu já vi motivos pra comemorar.

26/01

Fiz outro exame de sangue. Se o valor do beta dobrou, é um bom sinal. É a primeira etapa vencida. Enquanto isso fiz mais dois testes de farmácia. Linha não tão clara em um e no outro, digital, já aparece a palavra mágica: grávida.

27/01

Beta triplicado.

29/01

Beta dobrou mais uma vez.

É oficial.

Tô grávida.

30/01

Não, péra. Vou fazer mais um beta pra confirmar.

31/01

Beta triplicou de novo. Ok, agora eu acredito. Tô grávida.